FIXAÇÃO DA ASA - Aplicações da Análise por Elementos Finitos (FEA)
Quer ver na prática como funciona a Análise por Elementos Finitos (FEA)? Neste artigo, apresentamos a validação estrutural da fixação da asa de um aeromodelo, detalhando todas as etapas da simulação — do pré-processamento ao pós-processamento — e a interpretação técnica dos resultados.
Leonardo S Silva
2/21/20266 min read


Aplicações da Análise por Elementos Finitos (FEA)-FIXAÇÃO DA ASA
A Análise por Elementos Finitos (FEA – Finite Element Analysis) é uma das principais ferramentas da engenharia moderna, baseada nos conceitos do Método dos Elementos Finitos (FEM – Finite Element Method). Inserida no contexto de Computer-Aided Engineering (CAE), a FEA permite que projetos sejam avaliados virtualmente antes da fabricação, identificando possíveis falhas estruturais, problemas de desempenho e limitações operacionais.
Em termos práticos, o FEM é a base teórica e matemática; a FEA é sua aplicação computacional por meio de softwares especializados. Essa distinção é fundamental: embora existam diversos softwares de mercado, todos utilizam os mesmos princípios matemáticos. O que os diferencia são interface, recursos adicionais, solver, velocidade de processamento e integração com outros módulos — mas não a teoria em si.
Construção do Modelo de Elementos Finitos
A partir de um modelo matemático, constrói-se o modelo de elementos finitos (FE), que consiste em:
Um conjunto de nós (pontos discretos)
Elementos que conectam esses nós
Formação de uma malha (mesh) que representa a estrutura
Cada elemento possui propriedades definidas, como:
Tipo estrutural (viga, casca, sólido, chapa, mola)
Propriedades do material (módulo de elasticidade, coeficiente de Poisson, densidade)
Comportamento linear ou não linear
Condições de contorno e carregamentos aplicados
A densidade da malha pode variar conforme a região analisada. Áreas com concentração de tensões — como filetes, cantos vivos, regiões de fixação ou mudanças bruscas de geometria — exigem maior refinamento. Já regiões com baixa variação de tensão podem utilizar malhas mais grosseiras, otimizando tempo computacional sem perda significativa de precisão.
Fluxo de Trabalho em FEA
Na prática, a aplicação da FEA segue três etapas fundamentais:
Pré-Processamento
Importação ou modelagem da geometria
Definição do material
Geração da malha
Aplicação de condições de contorno e carregamento
Processamento
Resolução numérica do sistema de equações pelo solver
Cálculo de tensões, deformações e deslocamentos
Pós-Processamento
Análise gráfica e numérica dos resultados
Identificação de regiões críticas
Validação ou necessidade de ajuste do projeto
Como exemplo prático, pode-se aplicar esse fluxo ao aeromodelo Skylift, realizando uma análise estática linear na fixação da asa. O objetivo é verificar tensões máximas, deslocamentos e fator de segurança na região de acoplamento, garantindo que a estrutura suporte as cargas aerodinâmicas previstas.
Benefícios da FEA
A aplicação da análise por elementos finitos proporciona ganhos estratégicos no desenvolvimento de produtos:
Prever e melhorar o desempenho estrutural
Aumentar a confiabilidade e segurança
Reduzir a necessidade de prototipagem física
Diminuir custos com testes experimentais
Avaliar diferentes materiais e configurações
Otimizar massa estrutural
Reduzir tempo de desenvolvimento
Especialmente na engenharia aeronáutica e mecânica, onde peso e segurança são fatores críticos, a FEA torna-se uma ferramenta indispensável.
Objetos de Estudo no Projeto
No contexto do aeromodelo analisado, os principais componentes avaliados são:
Fixação da asa
Esses pontos são estruturalmente críticos, pois concentram esforços provenientes das cargas aerodinâmicas, peso próprio e vibrações durante o voo. Uma análise adequada dessas regiões é essencial para garantir integridade estrutural e segurança operacional.
A) Pré-Processamento
O pré-processamento é a etapa mais estratégica da análise, pois consiste na idealização do problema físico em um modelo matemático representativo. Nessa fase, o engenheiro interpreta o comportamento real da estrutura e o traduz para o ambiente computacional (CAE).
Planejamento da Análise
Idealização do sistema:
O sistema real é simplificado conforme os princípios da mecânica dos sólidos. É necessário identificar corretamente:
Esforços atuantes
Condições de contorno
Regiões críticas
Hipóteses adotadas (análise linear ou não linear)
No caso do aeromodelo, durante o voo em regime estático, a asa é responsável por sustentar todo o peso da aeronave por meio da força de sustentação. Consequentemente, a fixação da asa torna-se um ponto estrutural crítico, pois concentra:
Cargas provenientes do peso total do aeromodelo
Esforços transmitidos pela estrutura da asa
Reações nos pontos de apoio
Assim, o carregamento aplicado na análise considera o peso do aeromodelo distribuído na região de fixação.




Definição do Material
Inicialmente, a peça foi estudada considerando alumínio genérico, utilizando uma análise estática linear. Posteriormente, foi avaliado o comportamento com plástico ABS, material efetivamente utilizado no aeromodelo.
A escolha do material influencia diretamente:
Tipo de análise (linear ou não linear)
Refinamento de malha
Critérios de falha
Limite de escoamento e deformação admissível
Preparação da Geometria e Modelagem CAD
Definição do conceito estrutural da peça
Modelagem 3D em software CAD
Simplificações geométricas quando necessário
Remoção de detalhes irrelevantes para a análise
Após a modelagem, aplica-se:
Condições de contorno (restrições)
Carregamentos equivalentes ao cenário de voo


Geração da Malha
Com a geometria definida, é criada a malha de elementos finitos, composta por:
Nós
Elementos tridimensionais
O refinamento foi maior nas regiões de:
Mudança de seção
Concentração de massa
Pontos de fixação
Antes de rodar o solver, realiza-se o check do modelo, verificando:
Conectividade da malha
Aplicação correta das cargas
Restrições coerentes com o problema físico
Essa etapa é crucial para evitar erros numéricos e resultados inconsistentes.


B) Processamento
Nesta fase, o solver de elementos finitos realiza a resolução numérica do sistema de equações, calculando:
Deslocamentos
Tensões
Deformações
Forças de reação
Resultados – Plástico ABS
Tensão Equivalente (Von Mises)
Tensão Máxima: 1,81 MPa
Tensão Mínima: 0,000489 MPa
A tensão máxima encontrada é extremamente inferior ao limite de escoamento do material (aproximadamente 505 MPa para referência comparativa estrutural), indicando ampla margem de segurança.


Deformação Equivalente
Deformação Máxima: 0,182 mm
Deformação Mínima: ~0 mm
A deformação é pequena e praticamente imperceptível visualmente, mantendo a integridade funcional da peça.


Deslocamento Equivalente
Deslocamento Máximo: 0,0052 mm
Deslocamento Mínimo: ~0 mm
O deslocamento máximo ocorre na mesma região de maior concentração de tensão, o que é coerente do ponto de vista mecânico.


C) Pós-Processamento:
Nesta etapa, realiza-se a verificação do comportamento estrutural, assegurando que o Modelo de Elementos Finitos foi corretamente configurado e representa de forma adequada o problema físico. Somente após a checagem completa do modelo — incluindo condições de contorno, malha e coerência dos resultados — é possível interpretar e validar os dados obtidos na análise.
Tensão:
Observa-se que o ponto de maior tensão está localizado na região central da peça, coincidente com a área de maior concentração de massa. A tensão máxima encontrada foi de 1,82 MPa, valor significativamente inferior ao limite de escoamento do material (505 MPa). Dessa forma, conclui-se que a peça opera com ampla margem de segurança, não apresentando risco de falha estrutural nas condições analisadas.
Deformação equivalente:
A deformação equivalente máxima foi de 0,182 mm, caracterizando uma variação dimensional muito pequena, praticamente imperceptível a olho nu e totalmente aceitável do ponto de vista estrutural e funcional.
Deslocamento equivalente:
O deslocamento máximo obtido foi de 0,0052 mm, também localizado na região de maior tensão. Trata-se de um valor extremamente baixo, evidenciando elevada rigidez estrutural e adequada distribuição dos esforços na peça.
Com base nesses resultados, a peça é considerada validada para aplicação em campo dentro das condições de carregamento analisadas. Caso fossem identificadas anormalidades, seria necessário reavaliar o modelo numérico e, se necessário, revisar o conceito estrutural da peça, considerando reforços, alterações geométricas ou mudança de material.
É fundamental destacar que a qualidade dos resultados de uma Análise por Elementos Finitos (FEA) depende diretamente da competência técnica do responsável pela modelagem. O software executa os cálculos, mas a correta interpretação física e estrutural é responsabilidade do engenheiro.
Portanto, o domínio teórico é imprescindível para a realização de uma análise confiável.
"O engenheiro não deve utilizar o software se não conhece a teoria."
